Ao abrir os olhos. Muitos podem criar grandes poemas, ter grandes inspirações repletas de metáforas e toques doces de mundos a se abrir e pássaros a cantar boas vindas. Mas...
Ao abrir os olhos, ela se viu cansada, antes mesmo de começar. O dia anuncia o mesmo que o ontem anunciava. Trabalho de pensar no tudo que tinha que fazer e que sabia que como sempre não faria nada e amanhã teria ainda mais trabalho acumulado.
Não era por querer que se enrolava na vida, mas simplesmente não sabia por onde começar. Seu maior defeito é o medo do início, por isso o medo a completava quando abria os olhos. Não havia espaço para pássaros cantantes, belos desjejuns, banhos perfumados e frescos.
Tudo era feito maquinalmente. E se vissem defeitos naquilo que ela fazia? Que seria de si?
"Pobre de mim!" pensava a jovem.
Mas ela não via que pobre seria ela realmente quando fosse velha sem nada fazer. Que pobre é aquele que deixa esvair nas mãos o seu maior trunfo, o tempo. Tempo esse que pune com ainda mais crueldade aqueles que o esquecem e os que o temem.
Não se sabe se a jovem era um ou os dois casos, mas ela estava errada e isso já se sabe e é o que importa. O tempo corria e a punição se acumulava como grãos colhidos e guardados no silo.
A moça se viu só e pior, viu que não era mais moça. Tão entretida estava no seu medo que esqueceu dos outros, esqueceu da vida. Olhava pelas vidraças vidas realizadas enquanto a sua não passava de um caco no chão. Olhava para suas mãos já enrugadas e sua pele já ressecada, tinha medo.
Ah, sempre o medo. Para o tempo o cheiro do medo exalado era sublime, um doce gosto de vitória. Ninguém podia ignorar-lhe à toa. E agora viria sua vingança.
Os dias da velha já não eram mais os mesmos. O que era um dia a perambular sem nada fazer era um século de martírio onde seus passos eram mais lentos, sua respiração mais precária, o gotejar da torneira meio aberta mais lento. Quase sem fim.
E quase sem fim foi o resto do que viveu.
"O que poderia ter sido se não fosse assim?" pensava a velha.
Poderia mas não foi. E o tempo ria-se dela.
- Arrependa-te - urrava ele nos seus ouvidos.
A velha se arrependeu. E foi dormir pensando que o amanhã seria diferente. Mas não foi. A velha não mais abriu os olhos para o dia.
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