Reticências

Fecho meus olhos e espero. Serei paciente prometo.

sábado, 21 de agosto de 2010

Nome


Era uma vez, uma criatura. Não tinha nome, não tinha vida. Um sopro de luz lhe concedeu existência. E ela viu que às vezes viver pode ser tão torturante quanto não ser nada.
Mas a criatura não se abateu. Sempre fez sem medo de errar tudo que achava certo. Um dia percebeu que nem sempre o certo era o que aparentava ser melhor para viver em sociedade.
A criatura mudou. Maquiou-se e vestiu-se conforme pediram. Falou dos assuntos que lhe eram indicados. Viveu conforme mandaram. Amou somente quem queriam.
A criatura ganhou um nome. E conforme ele guiou sua vida. Era plenamente feliz achava. Tudo dava sempre certo, mas em nada se aprofundava. Todos os dias comia comida balanceada, comparecia a escola e lá conversava. Com seus amigos andava pelas vitrinas de rostos vazios no shopping e olhava sempre as ofertas de máscaras disponíveis no mercado.
Vislumbrava em seu armário sua coleção de maior orgulho. Diferentes faces a miravam nas estantes junto com seus casacos de pele. Todos os dias escolhia uma diferente, multifacetava-se, amava aquela vida.
Festa não perdia nenhuma jamais. Dançava até um pouco, gostava de dançar mas mais importante era paquerar os corpos de músculos metrossexuais que beiravam a perfeição do anabolizante. Depois sempre se juntava com as amigas para resenhar tudo que acontecera, nada podia passar em branco principalmente se fosse para criticar quem estava com a máscara rachada ou quem não a usava (que obviamente com isso estava totalmente por fora da moda).
Amava todos os dias de sua vida. Esqueceu do que fora antes e vez ou outra vestia uma máscara de virtude. Era bom ser correto de vez em quando.
A pobre criatura não viu em que se transformara. Não sentiu o tênue peso do nome que a dominava. De boneca a criatura era chamada.

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