Reticências

Fecho meus olhos e espero. Serei paciente prometo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Carcereiro

Meus olhos se fecham ao sentir o tênue calor de seus braços. Ou seria o turbilhão de sensações que me impede de reagir?
Os segundos intermináveis e inconstantes passam pelas fibras do meu corpo. Que se dane. O mundo explodindo e eu aqui, onde mais importa. O egoísmo passa a ser amigável, diria eu. Talvez o mais admirável das qualidades que um ser humano pode ter. Isso é claro, sob a justificativa que eu tenho. Você, obviamente.
O piegas que morra, quero mais é ser feliz. Se realmente o mundo para ao nosso redor, é porque para nós o tempo imortal é impotente. O que me importa a opinião alheia? As partículas temporais não me atingem, as dores não mais me afetam. O sofrimento do ontem, passa a ser uma lembrança longínqua de um mundo infeliz e tão diferente do nosso.
Estranho, ser egoísta e preservar o nosso. Na verdade, o termo é mal empregado, considero você minha propriedade e não tenho receio de afirmar. Tanto faz ser sua dona ou sua escrava, o açoite da escravidão não me afeta e a transformação da servidão em algo singelo me atrai.
Anele-me em seus braços, correntes da escravidão. Sou perigosa solta por aí, sem você. Quero mais os meus limites, quero mais os seus braços e torturas milenares de beijos infinitos.
Sou egoísta e incorrigível, não sirvo ao convívio em sociedade. Sou tão malévola que quero, há e como eu quero, torturar-te a uma vida perpétua como meu carcereiro de dedicação exclusiva.
Abrace-me até o fim. Livre o mundo de mim e me conceda o maior dos prêmios. Conceda-me o paraíso. Conceda-me viver em seus braços.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Devaneando

Se vais pra longe de mim a cada dia mais longe, uma imagem que agarro tenta se apagar em meu peito. Dói profundamente a minha fraca memória. Queria poder guardar em mim o seu cheiro, o seu toque, o seu rosto. Mas tudo que guardo são ecos fracos do que foi o nosso momento. Só me restam berros dos meus sentimentos.
Minha razão se apaga, minha consciência desmaia e meu corpo grita. Sentimentos confusos se espalham e sensações estranhas me dominam. Onde estará você que não me acalma, que não me acalenta?
Devaneios invadem-me e tentam me preencher. Entrego-me nos braços da Ilusão, do Delírio. Sonhar é sempre bom, mas criar novas realidades é melhor ainda. A conveniência nos faz reis de nós mesmos, ou não.
Mas a razão volta e logo desfaz o engano. Tu vais a voltar, o histerismo que tenta me levar de ti vai embora.
Aqui estou, fria e inerte. Agora só seus braços e abraços vão me trazer de volta do meu devaneio sem fim.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sorva-me em Desejo

Beba-me,
Toma minha alma
Como um todo
Por seus lábios.

Traga-me,
Toma meus sentidos
Por inteiro
Com seus lábios.

Aspira-me,
Toma minha existência
Totalmente
Por seus lábios.

Degusta-me,
Toma meu corpo
Integralmente
Com seus lábios.

Sorva-me,
Convertida em desejo
Frenético
Para si.

Mas nunca me deixe,
Leva-me contigo
Como uma lembrança
Fixa e eterna nos seus lábios.

sábado, 5 de junho de 2010

Bom dia

Ao abrir os olhos. Muitos podem criar grandes poemas, ter grandes inspirações repletas de metáforas e toques doces de mundos a se abrir e pássaros a cantar boas vindas. Mas...
Ao abrir os olhos, ela se viu cansada, antes mesmo de começar. O dia anuncia o mesmo que o ontem anunciava. Trabalho de pensar no tudo que tinha que fazer e que sabia que como sempre não faria nada e amanhã teria ainda mais trabalho acumulado.
Não era por querer que se enrolava na vida, mas simplesmente não sabia por onde começar. Seu maior defeito é o medo do início, por isso o medo a completava quando abria os olhos. Não havia espaço para pássaros cantantes, belos desjejuns, banhos perfumados e frescos.
Tudo era feito maquinalmente. E se vissem defeitos naquilo que ela fazia? Que seria de si?
"Pobre de mim!" pensava a jovem.
Mas ela não via que pobre seria ela realmente quando fosse velha sem nada fazer. Que pobre é aquele que deixa esvair nas mãos o seu maior trunfo, o tempo. Tempo esse que pune com ainda mais crueldade aqueles que o esquecem e os que o temem.
Não se sabe se a jovem era um ou os dois casos, mas ela estava errada e isso já se sabe e é o que importa. O tempo corria e a punição se acumulava como grãos colhidos e guardados no silo.
A moça se viu só e pior, viu que não era mais moça. Tão entretida estava no seu medo que esqueceu dos outros, esqueceu da vida. Olhava pelas vidraças vidas realizadas enquanto a sua não passava de um caco no chão. Olhava para suas mãos já enrugadas e sua pele já ressecada, tinha medo.
Ah, sempre o medo. Para o tempo o cheiro do medo exalado era sublime, um doce gosto de vitória. Ninguém podia ignorar-lhe à toa. E agora viria sua vingança.
Os dias da velha já não eram mais os mesmos. O que era um dia a perambular sem nada fazer era um século de martírio onde seus passos eram mais lentos, sua respiração mais precária, o gotejar da torneira meio aberta mais lento. Quase sem fim.
E quase sem fim foi o resto do que viveu.
"O que poderia ter sido se não fosse assim?" pensava a velha.
Poderia mas não foi. E o tempo ria-se dela.
- Arrependa-te - urrava ele nos seus ouvidos.
A velha se arrependeu. E foi dormir pensando que o amanhã seria diferente. Mas não foi. A velha não mais abriu os olhos para o dia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Palco do destino

(respiração)
Tudo vai passar. As dores de hoje serão lembranças do amanhã. Aprendizados ficarão e com eles as experiências fazer-nos-a perfeitamente diferentes. Para o bem ou para o mal, mas nunca os mesmos.
A graça do destino e ver-nos relutar perante a ele, mas ser vivo e cônscio é exatamente isso. Engraçado ou não a piada é sempre feita, às vezes curta, às vezes comprida, mas sempre, sempre mesmo, encenada pelos joguetes humanos no grande palco da vida.
O grande segredo, ou não, é dar o melhor de si, tentar se divertir, assim quem sabe, a cortina se feche ao som de risos e aplausos e os atores se imortalizem alegres e satisfeitos.
É pão e circo. Sorrisos e gritos. Pule e faça acrobacias. Quem sabe recebemos uma esmola?