Reticências

Fecho meus olhos e espero. Serei paciente prometo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Busca-me

Se eu, longe longe,
Gritar seu nome,
Virás correndo me salvar?

Caminharás além dos sonhos,
Navegarás pelas dúvidas,
Se perderás pelos desertos da ausência,
Até me achar.

Passarás muitos anos,
A vagar por altiplanos,
Perdido nos escombros,
Nos meus traumas de horror.

Se não desistires,
Anos e anos de incerteza,
Será tudo que vais encontrar.

Lutarás dia após dia,
Criarás realidades relativas,
Correrás pelas paisagens,
Até claramente me escutar.

Saberás que estou chorando,
Baixinho a gemer de medo,
De tudo que há pior no mundo,
É deparar-se com a solidão.

Mas se me achares,
Aguentarás minhas farpas
De proteção?

Transpassarás minhas dores,
Cobrir-me-ás de amores,
Na certeza que eu vá
Um dia me acalmar?

És então meu cavaleiro,
És então minha salvação,
És o meu maior dos amores,
Nunca me largues então.

sábado, 21 de agosto de 2010

Nome


Era uma vez, uma criatura. Não tinha nome, não tinha vida. Um sopro de luz lhe concedeu existência. E ela viu que às vezes viver pode ser tão torturante quanto não ser nada.
Mas a criatura não se abateu. Sempre fez sem medo de errar tudo que achava certo. Um dia percebeu que nem sempre o certo era o que aparentava ser melhor para viver em sociedade.
A criatura mudou. Maquiou-se e vestiu-se conforme pediram. Falou dos assuntos que lhe eram indicados. Viveu conforme mandaram. Amou somente quem queriam.
A criatura ganhou um nome. E conforme ele guiou sua vida. Era plenamente feliz achava. Tudo dava sempre certo, mas em nada se aprofundava. Todos os dias comia comida balanceada, comparecia a escola e lá conversava. Com seus amigos andava pelas vitrinas de rostos vazios no shopping e olhava sempre as ofertas de máscaras disponíveis no mercado.
Vislumbrava em seu armário sua coleção de maior orgulho. Diferentes faces a miravam nas estantes junto com seus casacos de pele. Todos os dias escolhia uma diferente, multifacetava-se, amava aquela vida.
Festa não perdia nenhuma jamais. Dançava até um pouco, gostava de dançar mas mais importante era paquerar os corpos de músculos metrossexuais que beiravam a perfeição do anabolizante. Depois sempre se juntava com as amigas para resenhar tudo que acontecera, nada podia passar em branco principalmente se fosse para criticar quem estava com a máscara rachada ou quem não a usava (que obviamente com isso estava totalmente por fora da moda).
Amava todos os dias de sua vida. Esqueceu do que fora antes e vez ou outra vestia uma máscara de virtude. Era bom ser correto de vez em quando.
A pobre criatura não viu em que se transformara. Não sentiu o tênue peso do nome que a dominava. De boneca a criatura era chamada.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Shiu


Palavras. Poderes e convenções. Realidades formadas com monossílabos. Shiu. Nem mais uma palavra.
Imposições diárias. Necessidades básicas ou não, eu não quero mais um copo. Shiu.
Onde está o ar que me foge? Asfixia-me por decisões que você tomou antes mesmo que eu nascesse! Um povo tão antigo assim... o que me diz sobre o fato de que eu não ligo a mínima pra você? Shiu.
É isso mesmo. Quer saber? Não, não quer. É uma pena não ter voz. Um pingo no "i" nem sequer pode imaginar a evolução de alcançar a excelência de um "a". E nem importa que entonação se dê a essa vogal, tudo estará bem se você cumprir suas tarefas diárias... ou não. Shiu!
É bem arbitrário você.. não te suporto. Por isso mesmo que o seu destino não me interessa nem um pouco. Posso casar com quantos anos eu quiser, 30 não me parece fim da linha para uma mulher. Shiu...
Não importa se os 15 anos não tem valsa, se os 18 não tem carro, se não há faculdade de prestígio, se não há carreira planejada. Caso não dê uma festa de casamento já espero não receber aquele faqueiro de primeira linha. E é isso aí... shiu?
Sim shiu quantas vezes eu quiser. Você nunca tratou de me ouvir, por que agora? Só por que não falo bem de você? O mundo não é só esse resuminho social estúpido. Eu posso lutar. Treme nas bases de ouvir isso? Posso muito bem tentar, bem sabe.
Longe de tudo e de todos para um lugar onde só eu conheça, eu posso fugir. Bem além dos verdes mares, das brancas areias, da vegetação seca e da terra rachada. Bem mais além do gelo e do fogo. Longe de ti.
Mas não! Não me esmagues agora! Não assim, não cale a minha voz! Por que estás em todo lugar? Por que sempre me encontras? Por que não mudas? Por que me odeias? Por que me matas pouco a pouco? Por que?
Shiu.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dia

Quer saber de uma coisa? Hoje é o nosso dia. Um dia só nosso. Pra mim tudo é lindo e belo nem que seja só por um segundo. Não há mais medo, não há mais tristeza, não há mais solidão. Tudo é festa e alegria, em mim.
Hoje, tudo é secundário. Hoje, o tempo me abençoou. O tempo pesa. Em pensar que ele passa voando, passa devagar, mas a consciência de sua passagem é como um troféu para mim. Sim todo o meu tempo foi muito bem empregado, muito bem vivido obrigada. Mas o prêmio não é só meu. O prêmio é nosso e esse nosso faz cócegas em minha língua, é engraçado, é gostoso de dizer.
O que cabe a mim desse prêmio vai ser muito bem guardado num espaço somente meu, onde ninguém sabe chegar e nem o eu que possui esse espaço sabe precisar dimensões. Mas dentro dele, uma coisa eu sei: está repleto de paz. Serenamente digo, afirmo e repito se preciso for que eu te amo e você é o motivo e inspiração de tudo de bom que eu faça.
Hoje sou só contemplação... Quero olhar em mim o que sou e fui, mas nada quero mudar, porque o que sou agora é o que quero ser pra sempre e o que sinto quero eternizar. Quero ouvir sua voz, quero ouvir sussurros de amor, quero abandonar qualquer possibilidade de dor, quero viver e ser somente o nosso amor.
Mas eu desisto! Estou sinceramente odiando esse texto, porque ele não diz nada do que eu quero dizer! Tudo ele consegue ser é bobo de tanta melosidade.
Mas tanto faz. Hoje, não sou escritora. Não tenho palavras nem pensamentos para unir em bons textos. Não tenho o dom de trazer toda a beleza do que estou a sentir para o exterior. Também que todos saibam com todas as letras que hoje eu não sei me expressar, só sei ser melosa e boba tal qual a criança imatura que sou.