Reticências

Fecho meus olhos e espero. Serei paciente prometo.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Suspiro


Em meio ao vazio de palavras, em meio a falta de inspiração. Repleta de pausas, repleta de espaços ocos nos buracos do coração. Parava pra observar sua vida, mas não sabia aonde parar. Parada estava, só lhe restava suspirar.
Do cansaço intenso da espera por acontecimentos, se perdeu no mar do tempo. Perdida estava, perdida suspirava. Num suspiro sem fim, num universo paralelo. Inatingível. Inabalável.
Ela esperava apenas alguém para lhe dar a mão. Um certo alguém veio, mas não era quem esperava. Decidiu aguardar mais. Estava convicta que ele viria.
O Ele, era especial, ao menos na sua tola cabecinha. Ajudara-o muitas vezes, dedicara sua alma em servidão quando necessário. Ele sempre sorria um sorriso torto e para ela piscava os olhos. Ela acreditava sem questionamentos no quanto era especial para ele.
Dias e dias se passaram, mas ela nem sequer notou. No seu alvo mundo do nada, o tempo também nada era. Nada como mais um suspiro.
Outra pessoa se esgueirou pela cerca de suas propriedades emocionais e ela recusou ajuda. Ele, seu príncipe, é claro, seria o primeiro a cruzar os limites de si.
Ele não veio e o tempo passou. Ninguém mais a procurou. Ela não viu que a ajuda vem de quem menos se espera e que o preço da bondade é a ingratidão.
(suspiro)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Chuva


Podia eu,
Em meu sonho quebrado,
Lançar mão dos enigmas,
Que me levam a ti?

Podia eu,
Em meio a noite fria,
Fazer uso das charadas,
Que misteriosamente nos liga?

Queria eu,
Em meio a imaginação,
Fazer uso do poder,
De criar a realidade.

Queria eu,
Nesse meu mundo,
Lançar mão da felicidade,
Amar incondicionalmente.

Gostaria eu,
Que não fosse só ilusão,
Que não mais sonhasse,
Que em mim houvesse razão.

Mas não há,
Nada além do tédio,
Da chuva a tamborilar a janela,
Da saudade a apertar o coração.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sensação


Descrevendo ou não, acreditando ou não nessa pseudo-realidade, ou não. Queria apenas palpá-la, sentir na ponta dos dedos aquilo que poderia discernir como o certo, ou não.
Era a busca constante dos dados pro seu mundo, pois o seu "eu" variaria de acordo com o contexto. Não o eu de verdade, é claro, mas o "eu", aquele "eu" que se mostra, que se vende no dia a dia nas esquinas da vida. Os "eus" são facilmente encontrados em qualquer tenda de vendedor ambulante por aí, alguns com embalagem, outros meio quebrados na promoção e até mesmo alguns com chance para teste.
Mas acontece é que queria construir algo novo. Queria um "eu" que o consumidor ainda não tivesse. Talvez um "eu" das prateleiras do mercado, junto com a área de papelaria, ou talvez junto das balas. Sonhava com o dia em que seu "eu" poderia ter a qualidade das vitrinas de shoppings, mas antes disso precisava voltar a sua pesquisa de campo.
Buscou por aí, embaixo de pedras, atrás de portas, dentro de estojos. Até nos fantasmas das fotos esquecidas num passado remoto olhou. Quis sentir coisas nunca sentidas. Quis se amar acima de tudo. Quis tanto que viu que não mais podia querer.
Constatou que que certamente seria apenas o "eu". Não melhor, não pior, apenas o "eu" que fosse a sua cara. Seguiu a vida então, gostariam e comprariam o seu "eu" apenas que sentissem como sentia. Sentiu cada coisa ao seu redor, filtrou e guardou em si apenas o que julgava valioso.
Colecionou sensações. Amou e foi amada. E viu que em cada coisa feita com a emoção, sem preparar invólucros é que se concentra a real felicidade.
Assim seguiu. E seu "eu" sem mais, nem menos, sem ao menos sentir essa notícia, foi para a mais estimada prateleira das boutiques de luxo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Camaleão

Era só a manhã. Era só o brilho do sol. Era uma vez, estrelas numa noite de luar. Era um sonho acordado de amor.
Nesse momento de contemplação apaixonada, a compreensão da esfera maior. Pensamentos a mil, raciocínio trabalhando. Deitada naquela relva úmida o tempo passava sobre si. O cenário não importava. Ela tinha olhos que não viam.
Mente que viajava e não nos cabia compreender. Viagem da máquina humana. Defeituosamente sublime. Arte, ciência, amor. De tudo envolvido, só resultava numa alternância de conhecimento global e estupidez generalizada. Ela era um caos. Ela amava.
E sobre si o tempo passava, materializava-se com as mudanças no ambiente. E ela, como sempre, pensava em mil conspirações, mil possibilidades improváveis, enrolava-se no manto da insegurança e fechava os olhos para as percepções ao redor de si.
E isso perdurou indefinidamente. Indefinida tal qual ela sempre foi. Camaleônica tal qual sempre julgou ser o melhor a ser.